JANETE DE REDENTOR DA LUZ

 

 

        Janete é uma mulher de alma forte. Possui uma beleza no olhar de quem não acredita em tudo que vê. Ela vem de uma vida sofrida, porém tantas lutas não a deixaram fraca. É jovem, mas carrega muita bagagem. Sua vida nos ensina sobre resiliência. Nasceu numa casa destelhada, em uma cidade saqueada pela corrupção. Janete veio ao mundo num dia de vendaval e muita chuva. O prefeito, em sua mansão, não movia uma palha para ajudar. Ele era excelente na oratória, mas usava as palavras apenas para ludibriar o povo carente. Os moradores da Vila Santo Cego viviam presos na miséria, e o único “ponto turístico” da cidade era o Casarão da Fazenda Zé Metralha.

Os pais de Janete, Aparecido e Nilvânia, trabalhavam para o prefeito Zé Metralha. Faziam de tudo. Eram escravizados, viviam esquecidos da felicidade e sempre lembrados pelo revés da vida. Iam dormir totalmente exaustos; pareciam arroz de terceira. Mas eram obrigados a mentir, dizendo que trabalhavam no melhor emprego do mundo. Isso revoltava Janete. “Que velho ordinário! Meu Deus, quando verei meus pais livres desse malvado!”, pensava ela, chorando pelos cantos. Seu lindo rosto era afetado pela fúria das assombrações diárias. Ela só contava com Deus. E era só o que tinha.

Janete também sofria na mão do prefeito. Ele a proibia de ir à Casa de Deus. Era privada daquilo que mais gostava: ir à igreja.
“Onde a senhora pensa que vai?”, bradava Zé Metralha, com olhos arregalados e uma cara enfezada que dava pavor.
Janete estava arrumada com um vestido perolado e com a Bíblia em mãos. Mesmo com medo, tentou desafiar o manda-chuva da cidade: “Eu vou sim! Vou à Casa do meu Pai! Ninguém vai me impedir!”

Zé Metralha virou uma fera e soltou uma risada de deboche: “Menina, que pai você tem? Você é sozinha no mundo, porque o Aparecido não regula bem e a Nilvânia é uma histérica. Os dois são imprestáveis que mal sabem fazer o serviço de casa. Trocando em miúdos: você não tem ninguém! E esse que você chama de pai é cego. Eu, quando fundei este lugar, fiz questão de colocar o nome que ela tem (Vila Santo Cego) porque eu sei que ele não vê nada aqui. E isso me torna o rei, o verdadeiro dono deste lugar.”

Neste momento, um apagão tomou conta da cidade, um breu inexplicável. Janete, mesmo na escuridão, abriu um leve sorriso, vendo ali uma oportunidade de buscar a Deus. A menina, muito esperta, conseguiu se livrar de Zé Metralha. No jardim da mansão, ela ouvia o prefeito gritando, tomado pelo álcool. Ela ia à igreja, mas orava para que Deus tirasse o coração de pedra daquela alma.

Ao abrir a porteira da fazenda, ela ainda ouvia os gritos do prefeito. Ele estava atordoado, tentando achar a lanterna e xingando os funcionários da prefeitura pelo descaso, sendo que ele mesmo era um ser que pensava estar acima de tudo e de todos. Pobre criatura!

Janete, enfim, conseguiu chegar na igreja. Lá, deixou no altar todo o cansaço, infortúnio e opressão. Derramou-se em lágrimas aos pés do Senhor. De repente, uma luz se fez presente em seu olhar lacrimoso. Naquela visão, Janete viu Zé Metralha aproveitar a escuridão para chegar sorrateiramente e agarrar Nilvânia.
“Agora você não escapa. Sei que você está acesa de vontade! Aparecido não dá conta do recado, mas eu dou!”, dizia ele.
Nilvânia começou a gritar, mas Aparecido estava numa missão junto com os funcionários da prefeitura para restabelecer a luz na cidade. Zé Metralha sussurrou no ouvido de Nilvânia: “Você é minha! Não adianta gritar!”

O sofrimento foi tão grande que a mãe de Janete chegou a pensar em cravar uma faca no bucho do velho safado. Mas o que a impedia de cometer essa atrocidade era o medo de sangue. Não suportava ver sangue! Então, ela simplesmente orou a Deus pedindo livramento.

Toda essa cena Janete visualizava na luz (na visão espiritual). Janete orava também. Zé Metralha estava começando a rasgar o vestido de Nilvânia quando teve um mal súbito, um infarto fulminante. Nilvânia se assustou, teve uma queda de pressão e desmaiou.

Enfim, quando acordou, viu-se livre daquele pesadelo. A luz voltou. Aparecido retornou da prefeitura, pensando que o patrão estivesse vivo para lhe contar o que causou o blecaute. Mas quem realmente decifrou este mistério foi Janete. A escuridão era a própria vida de José Elielson, o Zé Metralha. Uma vida inteira dedicada ao desprezo pela luz, por aquilo que é certo e do bem. O desprezo pelas coisas de Deus. A cidade, enfim, se viu livre do monstro.

Nilvânia estava com medo de Aparecido pensar mal e brigar com ela. Mas Aparecido agiu como um homem de Deus: abraçou a esposa e foi compreensivo. “Já passou! Fica assim não, Bio! Estou aqui, minha velha!”

Depois deste episódio, a cidade se reergueu. O povo deixou de comer na mão do opressor. O pai de Janete, Seu Aparecido, foi eleito o prefeito da cidade. Janete, serva fervorosa e filha de Deus, deu a ideia para seu pai mudar o nome da cidade de Vila Santo Cego para Redentor da Luz. E assim foi feito. E a nossa vida é uma caminhada para permanecermos na luz, mesmo sabendo que não somos perfeitos.

(Autor: Poeta Alexsandre Soares de Lima)

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