A História de Edinira: Entre a Lagoa e o Rio
Edinira nasceu em 1949, em Trapiche da Barra, um bairro de Maceió, Alagoas, onde a vida tinha o ritmo das águas da lagoa e a simplicidade de quem cresce perto do mar. Dois anos depois, nasceu sua irmã Lenira, e a casa ganhou mais vida — mas também começaram as provações que marcariam para sempre o coração da menina.
Quando a mãe foi para a maternidade, o pai pediu a uma tia que viesse buscar Edinira para levá-la até a casa da avó, que morava do outro lado da lagoa. A viagem só podia ser feita de barco, e naquele dia, enquanto remavam calmamente, ouviram tiros secos, assustadores. O pai logo abaixou a cabeça da filha, todos se agacharam, com o coração disparado, até chegarem em segurança. Pouco tempo depois, receberam a notícia que partiu o coração de todos: o tio Agenor, que era vizinho e trabalhava na estiva, havia sido morto. Era época de Carnaval, mas não houve festa — apenas dor. A avó sofreu tanto que desenvolveu bronquite, e para completar a tristeza, a pequena Lenira, ainda bebê, adoeceu e faleceu, deixando um vazio imenso na família.
O pai, um homem trabalhador e determinado, decidiu então se mudar para Coqueiro Seco, perto da casa da avó. Comprou uma casa e ergueu na frente um armazém cheio de tudo o que a gente precisava: cereais, laticínios, pães, mantimentos de todo tipo. Com o tempo, comprou roças e um barco de pesca, e a mãe, uma mulher bonita, de cabelo curto e jeito doce, passou a ajudá-lo no atendimento. Vieram então os irmãos: Wellington, Edson, depois Rudinei. A vida parecia se endireitar, mas algo começou a mudar dentro da mãe.
Ela tinha o costume de jogar no bicho todos os dias, e fazia simpatias: acendia um fósforo dentro de um copo de café pronto, e o resultado que aparecia era, por coincidência ou não, o mesmo do sorteio da tarde. Com isso, ajudava a aumentar os lucros do armazém. Mas também começou a se aborrecer facilmente, e um ciúme forte e sem explicação tomou conta dela. Certa vez, quando o pai chegou tarde em casa, começaram a discutir, e ela, num ímpeto de raiva, jogou um prato contra ele. Ele abaixou a cabeça, e o prato acertou a cristaleira, que se despedaçou toda, fazendo barulho que parecia nunca mais acabar. A partir daquele dia, a mãe não foi mais a mesma.
Passou a ficar horas na casa da vizinha, deitada — coisa que nunca tinha feito antes, pois sempre gostara de estar em casa, cuidando de tudo. Ficou agressiva, perdeu a paciência com tudo e com todos. Grávida de Rudinei, chegou a dar um soco tão forte no ouvido de um tio que ele ficou surdo. A doença foi piorando, até que o pai, sem mais alternativas, precisou interná-la na Casa de Saúde Mauro Mousses, em Bebedouro — um lugar bom, equipado, prova do quanto ele se esforçava para cuidar dela.
Edinira tinha então sete anos. Ia visitar a mãe com a tia, mas ao invés de conversar ou perguntar como ela estava, a mãe a chamava para brincar de amarelinha, como se nada estivesse acontecendo. A tia percebia que não havia melhora, e voltavam para casa com o coração pesado, carregando a tristeza de ver quem amava se perder aos poucos.
Um dia, a mãe recebeu alta. Chegou de carro, acompanhada de uma enfermeira — algo rico e raro para a época, naquela terra. Ela estava bonita, arrumada, parecia bem. O médico avisou ao pai: ela não podia ter mais filhos, pois os nervos ainda estavam abalados, e qualquer aborrecimento poderia fazer tudo piorar. Mas pouco tempo depois, ela engravidou de Mercedes. O problema voltou com força total: agressiva, incapaz de cuidar de si mesma ou dos filhos, não tinha condições de criar a nova bebê. O pai, com o coração partido, resolveu mandar a menina de três meses para o Rio de Janeiro, para uma tia que não tinha filhos e poderia cuidar dela com todo amor.
Quando Mercedes completou um ano e oito meses, a tia a trouxe para visitar. Edinira, já com oito anos, achou a irmã a coisa mais linda do mundo — pequena, graciosa, e só queria passear com ela e com as primas. Mas a alegria durou pouco: a tia voltou para o Rio com a menina, e a família se mudou de novo, agora para Maceió. O pai alugou um bar com uma casinha nos fundos, e ali ficaram, enquanto a saúde da mãe piorava cada vez mais.
Ela quebrava tudo dentro de casa, gritava, partia para cima das pessoas. Tinha dias, é verdade, em que parecia voltar a ser quem era: foi ela mesma quem matriculou Edinira no Colégio Dom Pedro II, no centro da cidade. Mas a tristeza da menina era tão grande que às vezes ela não queria estudar. Saía da escola e ficava rodando na praça, tomando sorvete, esperando dar a hora de voltar, para não enfrentar a realidade de casa.
Uma colega a viu e contou tudo à professora. A professora mandou um bilhete para o pai assinar, avisando das faltas. Edinira chorou muito, implorou, tinha medo de levar uma surra, mas ninguém a ouviu. No caminho de volta, pediu à colega Shirley que não entregasse o bilhete. Shirley propôs um acordo: como o pai tinha o armazém, Edinira teria que levar para ela arroz, feijão, açúcar, biscoitos — tudo o que pedisse. Se fizesse isso, o bilhete nunca chegaria às mãos do pai.
De madrugada, quando todos dormiam, Edinira saiu devagar, abriu a porta do armazém, pegou tudo o que combinou e entregou à colega no dia seguinte. Shirley assinou o bilhete com uma letra parecida, devolveu à professora, e Edinira escapou de levar uma surra. Mas o segredo pesava no coração, assim como todos os outros sofrimentos que ela via e vivia.
Aos nove anos, as cenas dentro de casa ficaram ainda mais difíceis. A mãe falava sozinha, tinha crises que pareciam não ter fim, e um dia, numa crise terrível, torceu o pescoço de uma galinha, bebeu o sangue, fazia coisas que assustavam a todos. Edinira e os irmãos assistiam tudo, com medo e dor. Houve um dia em que a mãe parou de respirar, ficou imóvel, e todos pensaram que ela iria morrer. A tia acendeu uma vela, colocou entre as mãos dela, deu cheiro de barbante queimado, e por um milagre, ela voltou a si, mas a paz nunca mais voltou para aquela casa.
Ainda assim, havia espaço para brincadeiras e travessuras. Na porta de casa, Edinira e os irmãos brincavam muito. Perto dali morava o Seu Pedro, que fazia quebra-queixo durante o dia e deixava as formas no sereno à noite para endurecer. Edinira, muito levada, pulava o muro, ia até o quintal, pegava o doce com as mãos e saía comendo, ainda chamando os primos e irmãos para fazer o mesmo. Até que Seu Pedro reclamou com o pai. Ele deu uma boa surra na filha, e para ela parar de fazer arte, a colocou numa aula de tricô, na varanda de uma senhora em frente à casa, todas as noites. Edinira ficava olhando as outras crianças brincando, com muita vontade de estar lá fora, mas obedecia, com o coração apertado.
Às vezes, a tia os levava para tomar banho de mar, na Rua da Praia, onde o pai mantinha o armazém e o bar. Num desses dias, Edinira quase morreu afogada — foi o esposo da tia, o tio Sebastião, que a puxou pelos cabelos, bem a tempo de salvá-la.
Mas a situação da mãe já não tinha jeito. Falava horas sozinha, chorava sem motivo, não dormia, deixou de reconhecer quem amava. O pai, cansado, sofrido, decidiu mandá-la para o Rio de Janeiro, para ser tratada numa clínica especializada. No início, pensou em mandar Wellington junto, mas depois resolveu enviar Edinira.
Vieram de avião, pela Companhia Real — uma viagem que parecia um sonho, mas carregava a dor da separação. Saíram de manhã, chegaram ao Rio já no fim da tarde, com o sol baixando e pintando a cidade de cores quentes. No aeroporto, o tio já os esperava, com um sorriso acolhedor, pronto para receber a menina que deixava para trás tudo o que conhecia: a lagoa, o mar, os irmãos, a avó, e uma infância marcada por tanta dor, mas também por muito amor e coragem.
Edinira chegou ao Rio com os olhos cheios de lágrimas, mas também com uma força que vinha de dentro — a força de quem já tinha visto tanto, e que carregava no peito a esperança de dias mais calmos, de poder reencontrar a irmã Mercedes, e de um dia ver a paz finalmente chegar à sua vida e à de toda a sua família.
E essa foi só o começo da caminhada de Edinira: uma história de superação, de amor que resiste a tudo, e de uma menina que cresceu aprendendo que, mesmo nas águas mais agitadas, sempre há um caminho para a outra margem.
( Autor: Poeta Alexsandre Soares de Lima )


Olá meus amigos! Eu Poeta Alexsandre Soares de Lima, agradeço desde já pela leitura! Eu faço o convite pra vocês me acompanharem mais de meus trabalhos nas minhas redes sociais. Um forte abraço! DEUS abençoe sempre
Bom texto, Alex!
Muito obrigado, meu amigo! Um forte abraço!